Arquivo | dezembro, 2011

Das paisagens

24 dez

Viajar de carro é mais demorado. Pode ser que você não chegue, pode ser que fique parado em um trânsito infernal na Serra do Cafezal, por exemplo, porque estão duplicando a rodovia. Pode ser que tenha ocorrido um acidente, pode ser que o pneu fure, pode ser que dê uma pane elétrica no seu carro e você tenha que esperar o guincho por horas na beira de uma estrada quente. Pode ser que chova pra dedéu e que você tenha que parar no acostamento para esperar o toró passar. Pode ser que alague, que desça o morro em uma parte da estrada, que faça um calor infernal e você derreta dentro do carro.

Pode ser que não aconteça nada disso.

E pode ser, é muito provável, que você seja presenteado com isso:


NOTA: Luquinhas nunca tinha visto um arco-íris.

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Dos amigos

24 dez

Outro dia, a @Vivianf disse que a internet a aproximou de desconhecidos e a afastou dos amigos. Isso também aconteceu comigo, principalmente na parte boa da história: a dos grandes amigos que a internet me trouxe.

A Uli foi uma dessas. Não lembro bem quando começamos a conversar, mas sei que foi por causa do blog: ela começou a ler o Eneaotil (acho que o blog até tinha outro nome na época) e depois eu passei a ler o blog dela. E aí começamos a nos aproximar, até que ela veio para São Paulo e nos conhecemos pessoalmente (e de quebra, ainda conheci o Cláudio, seu marido, e o Theo, seu primogênito que, naquela época, tinha pouquíssimos meses de vida).

Depois disso, nunca mais nos vimos. Eu sempre lhe prometia uma visita, assim, de forma descompromissada: “Ah, espero um dia poder ir para Curitiba te ver, Uli”, eu dizia, mas não cumpria.

Quando eu comecei a pensar essa viagem, a primeira parada na minha cabeça foi Curitiba. Mais do que reencontrar a cidade e apresenta-la ao meu irmão e meu filho, os dois únicos que ainda não a conheciam, eu queria rever a Uli, o Theo e o Cláudio, e conhecer a Lara (porque de lá pra cá, eles eram três e viraram quatro).

A ideia era passar rapidinho, uma visitinha de médico: nós almoçaríamos com a família da Uli no da 22 e depois eu desceria a Blumenau, conheceria mais um pouquinho de outra cidade e seguiríamos viagem. Mas, quando eu avisei minha amiga que ia, ela ofereceu a sua casa para passarmos a noite e ficarmos mais um tempinho juntas.

Então eu mudei toda a nossa rota. Tirei fora Blumenau, desisti de Floripa e decidi descer de Curitiba a Gramado. Porque eu sei que a Uli não ofereceu só por educação, ela queria mesmo esse tempinho dos Macedo com os Pesserl, ela queria conhecer o Lucas que ainda não conhecia e queria me apresentar a sua pequenina.

Eu não saí pedindo abrigo para os amigos porque sei que não é fácil meter cinco pessoas na sua casa, principalmente nessa época de Natal e Ano-Novo. É inconveniente e dá trabalho. Mas eu não pensei nem por dois minutos em não aceitar a proposta da Uli, não pela economia que faríamos de hotel por um dia, mas porque é assim que a gente retribui alguém que faz mais por nós do que um parente. Dando um pouco de nós, do nosso tempo, da nossa família.

Quando eu cheguei na casa da Uli, podre de dirigir, depois de enfrentar horas de estrada e mais algumas horas de congestionamento, ela me mostrou toda empolgada o cantinho que tinha separado pra gente. E ela tinha montado quatro camas: uma de casal para os meus pais e três de solteiro. E tinha separado roupa de cama cheirosa e toalha para todo mundo.

Eu brinquei com o Theo, o Lucas virou melhor amigo dele e do sobrinho da Uli, a Lara sorriu pra mim, eu conheci os pais da Uli, ela conheceu os meus, meu irmão falou horas de tecnologia com o Cláudio, a Uli trouxe a melhor amiga dela para o jantar e terminamos a noite comendo uma lasanha deliciosa e nos empanturrando de chocolate. Depois, dormi como se estivesse na minha casa para enfrentar os 900 km de estrada do dia seguinte.

É muito bom ter amigos, mas o mais legal disso tudo é ser surpreendida pelas pessoas. Você acha que elas nunca serão capazes de se superarem e aí elas te oferecem o que tem de melhor e você termina o ano com o coração forrado de esperança porque o mundo tem dessas pessoas iguais aos Pesserl.

>> Uli, obrigada por tudo. A primeira parada, tenho certeza, foi uma das melhores partes da viagem. Tua família toda agora é parte da minha. E você, parte dessa e de outras aventuras dos Macedo. Um beijo e o melhor pra vocês em 2012. E sempre.

Da trilha sonora

21 dez

Não sei vocês, mas eu só funciono com música. Por diversas vezes, eu vivo algumas situações e fico imaginando qual seria a trilha sonora perfeita para aquele momento. Meu carro é super-total-flex. Só funciona com álcool, gasolina e música. E tem que ser música boa, porque se tocar Michel Teló o motor trava.

Antes de comprar o meu primeiro carro, eu entrei nas Lojas Americanas e vi uma promoção imperdível de um rádio automotivo. Num impulso, cliquei e comprei. O rádio chegou e ficou um bom tempo jogado em cima do móvel, afinal, eu não tinha carro. Depois morreu uma prima do meu pai que curtia aplicar um dinheiro em ações e deixou uma bela de uma herança. Mas os primos eram muitos e o que sobrou para a nossa família deu pra comprar um Corsa usado, de 1998.

Aí eu mandei instalar o rádio, mas eu sequer sabia ligar o carro. Até eu aprender, de vez em quando eu descia na garagem e ficava lá dentro do Corsa, curtindo um som sozinha. Quando eu comprei o Celta, o carro já veio com as caixinhas e mandei instalar o som logo no primeiro dia. Porque eu não sou capaz de andar um quarteirão no silêncio.

**

Pensando nisso, eu e meu irmão passamos dias e dias selecionando a trilha sonora perfeita para mais de  72 horas de rodovia e outras tantas dentro das cidades. Pedi umas dicas para o Pedrinho Couto (valeu, querido!), pensei no que eu gosto, considerei o que meus pais gostam e o que Luquinhas gosta também (afinal, eu tenho o poder do botão do rádio, mas sei que conviver é uma arte que requer levar o outro em consideração) e o resultado foi mais de 24 Gb de música.

Abaixo tem um aperitivo do que a gente vai escutar na estrada.

Da motorista

21 dez

Em casa, só eu dirijo. Quer dizer, meu pai dirigia quando éramos crianças e adolescentes, mas na década de 1990, ele abriu mão do carro. Cansou, não sei. Foi um dos primeiros a adotar o discurso de que carro era uma arma, de que as pessoas eram estúpidas demais no trânsito e aí eu e meu irmão passamos a nos virar nas caminhadas e no transporte público. De certa forma, foi bom pra gente. A cidade passou a ser mais nossa, sabíamos ir para tudo quanto era lugar de trem, de buso, de metrô e no pé dois.

Foi um ex-namorado que insistiu pra que eu aprendesse a dirigir. Motivado, creio, pelo fato de ele não aguentar mais me dar caronas pra cima e pra baixo, ir me buscar nos lugares e me devolver, depois, já na madrugada. Curiosamente, esse ex-namorado vendeu o carro e hoje só anda de bike.

O fato é que aprendi a dirigir. Fiz as aulas direitinho e passei de primeira na prova prática, me tornei uma boa motorista, embora não saiba muito bem o que é direita e esquerda (sou mulher, gente!). Comprei um carro véio, um rádio legal e dei às caras no trânsito de São Paulo. E fui avançando os limites da cidade, peguei estradas, dirigi em outros lugares mais perigosos, embora menos confusos do que a capital paulista.

A filha caçula passou a levar o irmão mais velho nas festinhas, os pais no médico. Uma troca de papéis da qual muito me orgulho.

Mas, às vezes, me arrependo de ter aprendido. Principalmente quando a gente se vê em um trânsito parado na Marginal Tietê. Ou quando a tua mãe te pede pra pegar aquela prima do interior em Cumbica, em um sábado à meia noite. Ou quando eu me lembro que é dia de supermercado quando eu queria ficar só de bobeira em casa. Em um mundo ideal, todo mundo seria só carona. Os ônibus teriam poltronas confortáveis, gente bonita, ar condicionado e um som ambiente bacana. E ninguém precisaria aprender a dirigir.

Por outro lado, gosto da autonomia de pegar o carro e poder conhecer o que eu quiser, sair na hora que eu quiser, parar onde eu quiser, ouvir a música que eu quiser. Acho que a gente fica mais egoísta mesmo com um automóvel, como papai defendia ainda em 1990. Mas essa é a vantagem de ser a única motorista de uma viagem de quase 6 mil km. Todo mundo só vai mijar na hora que eu quiser parar.

Da inspiração

20 dez

Em um dos meus filmes preferidos da vida toda, os Griswold cortam os Estados Unidos para chegarem a Walley World, um parque de diversões em Los Angeles. Eu espero que a minha viagem seja tão divertida quanto, mas que dê mais certo do que a do Chevy Chase.

Dos motivos

20 dez

Em época onde quase todo mundo pode andar de avião, atravessar quatro estados, cortar três países e percorrer quase 6 mil quilômetros de carro requerem alguns motivos.

O primeiro deles é sempre a viagem em si. Ela se basta e vale o cansaço físico, a paciência, o risco. O caminho ainda é desconhecido, mas sei que belas paisagens, cidades e pessoas nos esperam. Tudo ficará capturado e bem guardado dentro de nós.

O segundo é ter um carro novo. Comprei um carro no ano passado justamente pra isso. Mal uso o Celta dentro da cidade e, depois de um ano de uso, ele está com menos de 8 mil km rodados. Se eu tivesse um carro velho, talvez optasse pelo avião, ou mesmo por alugar um (dizem que é uma grande vantagem, mas não fiz essas contas).

O terceiro, acho que foi a falta de planejamento antecipado. Quando tive a ideia de levar a minha família pra Buenos Aires, fui olhar o preço das passagens e ida e volta sairia mais de R$ 1000 pra cada um. Se eu tivesse pensado nisso no meio do ano, talvez a passagem não tivesse saído nem pela metade do preço. Mas minha cabeça não funciona assim e não consigo planejar as coisas tão antecipadamente.

Somos em cinco, exatamente o número de cintos de segurança do carro. Gastaremos menos com combustível e hospedagem durante os dias em que dormiremos na estrada.

O quarto motivo e o mais importante é a minha mãe. Mamãe nasceu no interior de São Paulo, em uma família de espanhóis que foram fazendeiros de café, mas perderam tudo. Mamãe, claro, nasceu na época em que já tinham perdido tudo. Seus irmãos mais velhos conseguiram viajar para alguns lugares, mas não ela. Na infância e na adolescência, chegou a conhecer Curitiba e São Paulo, a capital. Mas, depois disso, viajou para pouquíssimos lugares.

Nossa família é uma família de classe média, mas mais pra menos do que pra mais na média. Se a nossa família fosse uma nota escolar em termos de grana, seria uma família C-. E sempre foi assim. Papai decidiu ser jornalista, mamãe decidiu ser dona-de-casa quando os filhos nasceram.

Passamos muitas férias na Praia Grande, em Itanhaém, em Ubatuba, em Olímpia, cidade da minha mãe. Nunca deixamos de viajar, mas nunca conhecemos grandes lugares quando criança. Nem quando adolescente.

Foi só aos 24 anos que andei pela primeira vez de avião, mas mamãe conseguiu andar de avião só aos 55. E foi para o Rio de Janeiro, visitar meu irmão que morava por lá na época.

Fico pensando que meu filho de 10 anos conhece mais lugares do que a minha mãe de quase 60. Luquinhas já foi pro Rio inúmeras vezes, pra Santa Catarina, para os Estados Unidos. A gente sempre se lembra (acho que deve ser instinto) de proporcionar tudo o que podemos para os nossos filhos, mas nunca para os nossos pais. Eles vêm sempre depois na lista de prioridades. Mas a gente se esquece que nossos filhos tem toda uma vida pela frente e nossos pais não mais.

Por isso, eu decidi, junto com o meu irmão, proporcionar isso para a mamãe. A chance de conhecer um monte de lugares de uma só vez, porque a vida é hoje e o tempo está passando. Sei que o sonho da mamãe é conhecer a Espanha, terra de sua família, do seu sangue fervilhante, do seu tempero, da sua história. Mas vamos começar do começo, com o nosso C-.

Mãe, essa é pra você.

Do mapa do trajeto

19 dez

É mais ou menos isso o que vamos fazer de carro:

Se o Google Maps estiver certo, são 5.400 km de ida e volta, só de estrada. Mas o trajeto não é nada tão fixo: a gente pode desistir de algumas cidades no caminho ou incluir outras, dependendo do orçamento.

Pensando bem, se depender do orçamento, eu não chego nem em Valinhos.