Da motorista

21 dez

Em casa, só eu dirijo. Quer dizer, meu pai dirigia quando éramos crianças e adolescentes, mas na década de 1990, ele abriu mão do carro. Cansou, não sei. Foi um dos primeiros a adotar o discurso de que carro era uma arma, de que as pessoas eram estúpidas demais no trânsito e aí eu e meu irmão passamos a nos virar nas caminhadas e no transporte público. De certa forma, foi bom pra gente. A cidade passou a ser mais nossa, sabíamos ir para tudo quanto era lugar de trem, de buso, de metrô e no pé dois.

Foi um ex-namorado que insistiu pra que eu aprendesse a dirigir. Motivado, creio, pelo fato de ele não aguentar mais me dar caronas pra cima e pra baixo, ir me buscar nos lugares e me devolver, depois, já na madrugada. Curiosamente, esse ex-namorado vendeu o carro e hoje só anda de bike.

O fato é que aprendi a dirigir. Fiz as aulas direitinho e passei de primeira na prova prática, me tornei uma boa motorista, embora não saiba muito bem o que é direita e esquerda (sou mulher, gente!). Comprei um carro véio, um rádio legal e dei às caras no trânsito de São Paulo. E fui avançando os limites da cidade, peguei estradas, dirigi em outros lugares mais perigosos, embora menos confusos do que a capital paulista.

A filha caçula passou a levar o irmão mais velho nas festinhas, os pais no médico. Uma troca de papéis da qual muito me orgulho.

Mas, às vezes, me arrependo de ter aprendido. Principalmente quando a gente se vê em um trânsito parado na Marginal Tietê. Ou quando a tua mãe te pede pra pegar aquela prima do interior em Cumbica, em um sábado à meia noite. Ou quando eu me lembro que é dia de supermercado quando eu queria ficar só de bobeira em casa. Em um mundo ideal, todo mundo seria só carona. Os ônibus teriam poltronas confortáveis, gente bonita, ar condicionado e um som ambiente bacana. E ninguém precisaria aprender a dirigir.

Por outro lado, gosto da autonomia de pegar o carro e poder conhecer o que eu quiser, sair na hora que eu quiser, parar onde eu quiser, ouvir a música que eu quiser. Acho que a gente fica mais egoísta mesmo com um automóvel, como papai defendia ainda em 1990. Mas essa é a vantagem de ser a única motorista de uma viagem de quase 6 mil km. Todo mundo só vai mijar na hora que eu quiser parar.

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9 Respostas to “Da motorista”

  1. Junior dezembro 21, 2011 às 12:33 pm #

    Lembra do show dos stones? Então, boa sorte 😛

  2. dona Rose dezembro 21, 2011 às 12:49 pm #

    Sinto muito, como vc vai parar só qdo quiser, vou ter q fumar dentro do carro!!!!!Levarei meu cinzeirinho portatil. :o))

    • Filipe dezembro 21, 2011 às 2:46 pm #

      HAHAHAHAHAHAHAHA
      A Lelê já tinha dito que a viagem é sua, Dona Rose!

  3. Leidi U. dezembro 21, 2011 às 12:56 pm #

    hahahaha
    muito bom o texto!
    o final lembrou-me uma vez que minha irmã mais velha viajou com meu irmão mais novo e minha mãe para Aparecida..e disse que não ia parar no caminho pra ninguém ir ao banheiro..e olha que não é uma viagem longa, mas foi o suficiente pro meu irmão chegar lá quase mijando nas calças!!!
    Como ela disse isso ele não falou que queria ir ao banheiro! hahaha
    Em casa somos três motoristas, eu, minha irmã e meu pai..que vive dizendo q não vai mais renovar a cnh pq já tem nós duas pilotando…rsrs
    Beijos e boa viagem a vocês!!!

  4. .mila. dezembro 21, 2011 às 1:25 pm #

    Acho que pude snetir um pouquinho como meu pai se sente, Lê. rs
    Tenho vontade de aprender a dirigir, apesar de me considerar velha pra isso já … mas sei lá, além da comodidade em ter “motoristas” só pra mim, hehehe, eu também sou muito estressadinha, saio xingando, brigando, sou daquelas que para no meio da rua pq o carro morreu e tem uns moleques na esquina zoando.

    Bom, quem sabe um dia …

    Beijo e ótima viagem! Vai dar tudo certo! 🙂

  5. tércio dezembro 21, 2011 às 5:24 pm #

    “Em um mundo ideal, todo mundo seria só carona.” Ótima frase. Vou adotar.

  6. Alice dezembro 21, 2011 às 7:05 pm #

    Boa Viagem Lele, regada a muito Jorge Versilo, beijo!

  7. Bel dezembro 24, 2011 às 12:23 am #

    Também dirigi sozinha, foi uma viagem bem menor, mas eu me senti a toda-poderosa, única no volante e “dona da bola”, mas agradecia o tempo todo ter uma navegadora legal, que olhava o mapa e ajudava nas ultrapassagens: “Se pique, Bel!”

  8. Cintia Passos setembro 5, 2012 às 3:26 pm #

    “Todo mundo só vai mijar na hora que eu quiser parar.”

    Acabei de descobrir o teu blog e estou me divertindo muito com as tuas histórias! Dirigo há pouquíssimo tempo e ainda nem passei dos meus 2.000km, mas me identifiquei muitíssimo com o que já li aqui! E espero logo adquirir aquela coragenzinha que falta para estender um pouquinho cada viagem. Beijo a até!

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