Arquivo | abril, 2012

Das verdades

9 abr

Acho que o Lucas foi o último da classe dele a acreditar em Papai Noel. Já fazia um tempo que ele voltava da escola e me perguntava:

– Mãe, fala a verdade para mim: Papai Noel existe mesmo? Nenhum amigo meu acredita nele.

Durante um tempo, confesso que menti. Menti porque achava que o Luquinhas “merecia” ainda sentir aquela palpitação que a gente só sente na noite de Natal quando é criança, esperando pelo presente. Menti porque quis que ele vivesse por mais tempo aquela curiosidade que faz a gente tentar espiar pelo buraco da fechadura pra descobrir como diabos é o Papai Noel. Menti porque depois que descobri que Papai Noel não existia, meu Natal foi ficando mais sem graça, ano após ano. Até ele nascer e iluminar os dias 24 e 25 de dezembro com seus olhinhos brilhantes, de tanta ansiedade.

Acho que não contei a ele antes que Papai Noel não existia por um pouco de egoísmo: Luquinhas devolveu os meus Natais felizes e, talvez, sem a crença dele no barbudo tudo voltaria a ser sem graça.

Depois de um tempo, quando ele vinha com a pergunta fatídica, eu saía pela tangente:

– Cada um acredita no que quiser, Luquinhas.

E Luquinhas acreditava no que ele queria acreditar: sempre que perdia os dentes, guardava-os embaixo do travesseiro e ganhava dinheiro da fada; deixava uma folha de alface para o coelho antes de dormir em troca dos ovos; e trabalhava arduamente para cumprir as missões que o Papai Noel deixava ao longo do ano escritas em cartinhas porque acreditava ser um de seus agentes. Era divertido.

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Os Natais sempre significaram, enquanto eu era criança, bons presentes. Meus pais faziam das tripas, coração, para conseguirem dar a mim e ao meu irmão videogames, jogos, bicicletas, roupas boas. A gente creditava tudo ao Papai Noel, o que no fundo é uma grande sacanagem que eu só aprendi depois que virei mãe. Porque eu gastava uma fortuna com o Luquinhas e quem era amado por isso era um cara que sequer existia.

Mas é só mais um sacrifício que os pais fazem por seus filhos e valia muito a pena toda vez que eu via meu filho na ponta dos pés, tentando olhar pela janela para ver se via o trenó do Papai Noel sobrevoando justo a nossa casa, na Pompéia.

Não me lembro do dia em que descobri que ele não existia, mas me lembro de todos os Natais em que eu acreditei.

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No último Natal, eu decidi dar a viagem de carro até a Argentina de presente para a minha família. Mas eu ainda não tinha contado para o Luquinhas que o Papai Noel não existia, então não havia como justificar o presente. Afinal, se o Papai Noel estivesse nos presenteando com uma viagem para a Argentina, por que não nos levaria em seu próprio trenó e nos deixaria apertados dentro de um Celtinha vermelho por dias?

Então, antes de sair de São Paulo, eu comprei um presentinho para o Lucas. Coisa simples mesmo, bem diferente do que ele estava acostumado a ganhar do Papai Noel nos outros Natais.

– Mãe, como é que o Papai Noel vai nos achar se nem nós sabemos onde estaremos no dia 24 de noite? – o Luquinhas me perguntou por várias vezes.

– Não se preocupe, Lu. Ele vai te achar – eu respondi, porque ainda não sabia bem como contar.

Descendo pelo Sul do País, acordamos no dia 24 de dezembro ainda em Porto Alegre. Tomamos café da manhã em Pelotas e percorremos todo o caminho até o Chuí, o trecho mais bonito da viagem. Cruzamos a fronteira para o Uruguai, passamos pelo vilarejo de nome Rocha e seguimos até Punta Del Leste. Lá, almoçamos. E rumamos para Montevidéo, aonde chegamos no meio da tarde.

Nossa véspera de Natal ia muito bem, obrigada. Nos instalamos em um hotel bacana e Luquinhas ficou mais aliviado porque daria tempo de Papai Noel nos localizar até lá. De noite, nos arrumamos e fomos procurar um restaurante para cearmos.

A ceia de Natal sempre foi farta também: peru, lombo, tender, camarão com catupiry, dois tipos de arroz, farofa, uns 5 tipos de salada, frutas e umas 6 sobremesas diferentes. Dessa vez, em pleno Uruguai, a gente só queria comer. Talvez uma carne boa, mas um jantar simples.

– Mãe, se der, a gente pode ficar no restaurante até a meia noite? Quero chegar no hotel e já encontrar o meu presente!

Saímos de carro em Montevidéo e descemos até as ramblas para ver o pôr-do-sol no Rio da Prata, às 9h da noite. Alimento para a alma. Depois, entramos no carro e partimos pela cidade. Passamos por toda a orla iluminada, pegamos um trânsito de uruguaios com seus pratos de comida, indo cear na casa de parentes. E não encontramos nenhum restaurante aberto. Nenhunzinho.

Ceamos dois cachorros quentes cada um em um trailer na frente do Hospital das Clínicas de lá. Nós 5: eu, Luquinhas, meus pais e meu irmão. Nós 6, aliás, porque conosco estava o dono do trailer, amargurado por ter que trabalhar na noite de Natal. Foi o pior cachorro quente que já comi, mas a melhor ceia que eu já tive. Porque o Natal, eu aprendi desta vez, é estar com quem a gente ama no lugar em que a gente quer estar.

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Quando chegamos ao hotel, alimentados de corpo e alma, Luquinhas não encontrou o presente em cima da cama. Esboçou uma decepção, mas antes que ele pudesse reagir, minha mãe gritou por ele no quarto ao lado: o Papai Noel tinha se confundido e deixado seu presente na cama dela.

Ele ganhou um carrinho, o presente mais simples que já tinha ganhado, sem saber que a viagem era o mais importante, o presente mais especial que eu já tinha dado a alguém. E ele ficou feliz como se tivesse ganhado na loteria.

– Papai Noel nunca se esquece, Lucas, por mais longe que a gente esteja de casa.

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No dia seguinte, foi Natal. Ele saiu pelas ruas de Montevidéo com seu carrinho que valia ouro. E no outro dia, fomos para Colônia do Sacramento, para atravessarmos o Rio da Prata de barco até Buenos Aires.

No dia 27 de madrugada, com o sol nascendo, bem no meio do Rio da Prata, eu chamei o Lucas e contei a ele quem era o Papai Noel e porque é que ele nunca se esquecia dele, Luquinhas. Disse a ele que o Papai Noel era um espírito que a gente encarnava quando a gente se lembrava de fazer o bem sem querer receber os parabéns. Que o Papai Noel era a minha vontade máxima de vê-lo feliz. E que o Papai Noel estava ali, diante dele, gaguejando enquanto o sol nascia no Rio da Prata.

Achei que aquele era o melhor cenário para fazê-lo entender que o Papai Noel vai existir pra sempre, enquanto a gente estiver junto. Não sei se um dia ele se lembrará disso tudo, mas eu, Papai Noel, nunca vou me esquecer.

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