Arquivo | junho, 2012

Do dia 23

18 jun

O dia ainda era noite quando acordamos em Curitiba para irmos até Porto Alegre. O Celtinha, todo orvalhado, mal sabia que enfrentaria 766 km em um só estirão. Faríamos uma paradinha estratégica em Gramado (RS) antes para o Luquinhas (e nós todos também) conhecer o Natal da pequena cidadezinha na Serra Gaúcha.

A ideia era continuar descendo a BR-116 (que já não se chama mais Régis Bittencourt até um pouquinho depois de Curitiba), porque a BR-101, aquela que pega todo o litoral da região Sul brasileira, devia estar lotada e perderíamos muito tempo nisso.

Foi a melhor escolha que a gente fez. Primeiro porque a estrada estava realmente mais vazia: um caminhão ou outro nos fazia empacar por alguns momentos, mas a ultrapassagem era segura. Recebi até um xaveco caminhoneiro quando paramos em um posto, já em Santa Catarina:

– Menina, você dirige bem pra caramba! – disse um cara que pilotava uma caminhonete que cruzou conosco por várias vezes.

A escolha também foi acertada porque foi um dos trechos mais bonitos da viagem: as paisagens são incríveis e fomos agraciados por mais de uma hora com dois arco-íris. Luquinhas, garoto de cidade grande criado em apartamento, nunca tinha visto um.

Ele dormia quando olhei pra cima e vi surgir o primeiro deles. Olhei um pouco mais pra cima e vi que era duplo. Aí resolvi acordá-lo:

– Filho, você nunca viu um arco-íris, né?

– Nunca, mãe.

– Então toma esse presente!


Luquinhas ficou boquiaberto, mas todos nós estávamos. E isso é daquelas coisas que só é possível ver em viagens de carro.

Antes de entrarmos no Rio Grande do Sul, ainda passamos por um chalé com um símbolo do Corinthians gigante e os dizeres: “RECANTO CORINTHIANO”.

Pra mim, só isso já teria valido a viagem.

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Chegamos a Gramado perto das 14h pela estrada RS-235, um caminho forrado de hortências (que lá é mato e que aqui em São Paulo custa tão caro).

A cidade estava abarrotada de gente porque o Natal lá é bem tradicional. As ruas ficam enfeitadas, de hora em hora ocorrem desfiles com o Papai Noel em carro aberto e em alguns lugares chega a “nevar” espuma que emporcalha o seu cabelo e a sua roupa. Eu acho um tanto quanto cafona esse tipo de coisa no Brasil, onde sabidamente não neva flocos de gelo, muito menos espuma. Mas a cidade é realmente bonita, com as construções suíças, os chalés, as araucárias e as flores.

Sentamos em uma padoca para almoçar porque todos os restaurantes estavam lotadíssimos e as mesas eram disputadas à tapa. Gramado é uma graça, mas certamente, para quem não gosta de muvuca, há outras épocas melhores para conhecer a cidade de verdade.

Ficamos poucas horas e decidimos ir para Porto Alegre antes de escurecer. Aliás, todo o planejamento da viagem foi para que eu não dirigisse nenhuma vez de noite, já que os caminhos eram desconhecidos e repletos de caminhão.

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Da Serra Gaúcha a Porto Alegre são pouquíssimos quilômetros (coisa de 120 km) e lá pelas 17h estávamos na capital do Rio Grande do Sul. Pela internet, eu tinha feito reserva em um albergue chamado Porto do Sol que foi, sem dúvida, o pior lugar que ficamos em toda a viagem. Esse é o problema de uma viagem não planejada: você acaba pesquisando pouco e dando um tiro no escuro.

O banheiro masculino era fora da casa e eu estava com um molequinho, o que dificultava um pouco as coisas, principalmente se ele quisesse ir fazer xixi durante à noite, por exemplo. Os quartos são bem velhos (os colchões e os travesseiros também), mas quando eu sugeri aos meus pais e ao meu filho esse tipo de viagem, falei dos possíveis perrengues e eles toparam. Esse é um dos pontos principais de uma viagem de carro, seja com a família, seja com os amigos: é preciso estar preparado para o que vier, seja bom ou seja ruim.

De noite, pegamos o Celtinha e fomos até a churrascaria Galpão Crioulo, para mim, a melhor de Porto Alegre. Custa cerca de R$ 60 por pessoa, mas a variedade de carnes é gigantesca, os espetos circulam em abundância, o tratamento é excelente. Tudo de primeira. Segundo os garçons, os donos do Galpão Crioulo são os mesmos donos das churrascarias Fogo de Chão e Vento Haragano, em São Paulo, mas aqui esses lugares são muito mais caros e o corte da carne é um pouco diferente. Não entendo nada disso, na verdade, mas entendo de comer e saímos rolando de lá.

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Durante a madrugada, muita gritaria na rua me deixou dormir pouquíssimo e no dia seguinte eu queria chegar até Chuí. Olhei o Celtinha por várias vezes da janela do quarto e pedi que aguentasse até o dia 4 sem dar nenhum problema. E ele me atendeu.

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