Do dia 23

18 jun

O dia ainda era noite quando acordamos em Curitiba para irmos até Porto Alegre. O Celtinha, todo orvalhado, mal sabia que enfrentaria 766 km em um só estirão. Faríamos uma paradinha estratégica em Gramado (RS) antes para o Luquinhas (e nós todos também) conhecer o Natal da pequena cidadezinha na Serra Gaúcha.

A ideia era continuar descendo a BR-116 (que já não se chama mais Régis Bittencourt até um pouquinho depois de Curitiba), porque a BR-101, aquela que pega todo o litoral da região Sul brasileira, devia estar lotada e perderíamos muito tempo nisso.

Foi a melhor escolha que a gente fez. Primeiro porque a estrada estava realmente mais vazia: um caminhão ou outro nos fazia empacar por alguns momentos, mas a ultrapassagem era segura. Recebi até um xaveco caminhoneiro quando paramos em um posto, já em Santa Catarina:

– Menina, você dirige bem pra caramba! – disse um cara que pilotava uma caminhonete que cruzou conosco por várias vezes.

A escolha também foi acertada porque foi um dos trechos mais bonitos da viagem: as paisagens são incríveis e fomos agraciados por mais de uma hora com dois arco-íris. Luquinhas, garoto de cidade grande criado em apartamento, nunca tinha visto um.

Ele dormia quando olhei pra cima e vi surgir o primeiro deles. Olhei um pouco mais pra cima e vi que era duplo. Aí resolvi acordá-lo:

– Filho, você nunca viu um arco-íris, né?

– Nunca, mãe.

– Então toma esse presente!


Luquinhas ficou boquiaberto, mas todos nós estávamos. E isso é daquelas coisas que só é possível ver em viagens de carro.

Antes de entrarmos no Rio Grande do Sul, ainda passamos por um chalé com um símbolo do Corinthians gigante e os dizeres: “RECANTO CORINTHIANO”.

Pra mim, só isso já teria valido a viagem.

**

Chegamos a Gramado perto das 14h pela estrada RS-235, um caminho forrado de hortências (que lá é mato e que aqui em São Paulo custa tão caro).

A cidade estava abarrotada de gente porque o Natal lá é bem tradicional. As ruas ficam enfeitadas, de hora em hora ocorrem desfiles com o Papai Noel em carro aberto e em alguns lugares chega a “nevar” espuma que emporcalha o seu cabelo e a sua roupa. Eu acho um tanto quanto cafona esse tipo de coisa no Brasil, onde sabidamente não neva flocos de gelo, muito menos espuma. Mas a cidade é realmente bonita, com as construções suíças, os chalés, as araucárias e as flores.

Sentamos em uma padoca para almoçar porque todos os restaurantes estavam lotadíssimos e as mesas eram disputadas à tapa. Gramado é uma graça, mas certamente, para quem não gosta de muvuca, há outras épocas melhores para conhecer a cidade de verdade.

Ficamos poucas horas e decidimos ir para Porto Alegre antes de escurecer. Aliás, todo o planejamento da viagem foi para que eu não dirigisse nenhuma vez de noite, já que os caminhos eram desconhecidos e repletos de caminhão.

**

Da Serra Gaúcha a Porto Alegre são pouquíssimos quilômetros (coisa de 120 km) e lá pelas 17h estávamos na capital do Rio Grande do Sul. Pela internet, eu tinha feito reserva em um albergue chamado Porto do Sol que foi, sem dúvida, o pior lugar que ficamos em toda a viagem. Esse é o problema de uma viagem não planejada: você acaba pesquisando pouco e dando um tiro no escuro.

O banheiro masculino era fora da casa e eu estava com um molequinho, o que dificultava um pouco as coisas, principalmente se ele quisesse ir fazer xixi durante à noite, por exemplo. Os quartos são bem velhos (os colchões e os travesseiros também), mas quando eu sugeri aos meus pais e ao meu filho esse tipo de viagem, falei dos possíveis perrengues e eles toparam. Esse é um dos pontos principais de uma viagem de carro, seja com a família, seja com os amigos: é preciso estar preparado para o que vier, seja bom ou seja ruim.

De noite, pegamos o Celtinha e fomos até a churrascaria Galpão Crioulo, para mim, a melhor de Porto Alegre. Custa cerca de R$ 60 por pessoa, mas a variedade de carnes é gigantesca, os espetos circulam em abundância, o tratamento é excelente. Tudo de primeira. Segundo os garçons, os donos do Galpão Crioulo são os mesmos donos das churrascarias Fogo de Chão e Vento Haragano, em São Paulo, mas aqui esses lugares são muito mais caros e o corte da carne é um pouco diferente. Não entendo nada disso, na verdade, mas entendo de comer e saímos rolando de lá.

**

Durante a madrugada, muita gritaria na rua me deixou dormir pouquíssimo e no dia seguinte eu queria chegar até Chuí. Olhei o Celtinha por várias vezes da janela do quarto e pedi que aguentasse até o dia 4 sem dar nenhum problema. E ele me atendeu.

Anúncios

2 Respostas to “Do dia 23”

  1. Alessandra Jaeger julho 14, 2012 às 1:32 pm #

    Meee.. só o fato de vocês terem tomado uma Polar (a melhor cerveja do mundo hahaha) já valeu a viagem =p Tô louca pra ler os próximos posts…a viagem ao Chuí é bem legal, também tem paisagens lindas.. Bjoss!

  2. Janaina janeiro 26, 2013 às 10:35 pm #

    Leonor, queria te dizer que seus posts no antigo eneaotil me salvou de uma depressão no início de 2011. Todo tempo livre que tinha, ao invés de chorar, lia seus textos. Li todos, me emocionei muito (de forma positiva) e isso me distraiu do que me derrubou. Hoje superei e tenho um filho de quase sete meses de idade! Imagino que nem de longe deve ter sido esta a intenção de criar o seu blog, mas tenho que te agradecer. Obrigada por dedicar algum tempo compartilhando, de forma ímpar, parte da sua vida. E… É uma pena não existir mais o eneaotil. Um beijo pra vc e outro pro Lucas!
    Janaína

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: