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Das verdades

9 abr

Acho que o Lucas foi o último da classe dele a acreditar em Papai Noel. Já fazia um tempo que ele voltava da escola e me perguntava:

– Mãe, fala a verdade para mim: Papai Noel existe mesmo? Nenhum amigo meu acredita nele.

Durante um tempo, confesso que menti. Menti porque achava que o Luquinhas “merecia” ainda sentir aquela palpitação que a gente só sente na noite de Natal quando é criança, esperando pelo presente. Menti porque quis que ele vivesse por mais tempo aquela curiosidade que faz a gente tentar espiar pelo buraco da fechadura pra descobrir como diabos é o Papai Noel. Menti porque depois que descobri que Papai Noel não existia, meu Natal foi ficando mais sem graça, ano após ano. Até ele nascer e iluminar os dias 24 e 25 de dezembro com seus olhinhos brilhantes, de tanta ansiedade.

Acho que não contei a ele antes que Papai Noel não existia por um pouco de egoísmo: Luquinhas devolveu os meus Natais felizes e, talvez, sem a crença dele no barbudo tudo voltaria a ser sem graça.

Depois de um tempo, quando ele vinha com a pergunta fatídica, eu saía pela tangente:

– Cada um acredita no que quiser, Luquinhas.

E Luquinhas acreditava no que ele queria acreditar: sempre que perdia os dentes, guardava-os embaixo do travesseiro e ganhava dinheiro da fada; deixava uma folha de alface para o coelho antes de dormir em troca dos ovos; e trabalhava arduamente para cumprir as missões que o Papai Noel deixava ao longo do ano escritas em cartinhas porque acreditava ser um de seus agentes. Era divertido.

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Os Natais sempre significaram, enquanto eu era criança, bons presentes. Meus pais faziam das tripas, coração, para conseguirem dar a mim e ao meu irmão videogames, jogos, bicicletas, roupas boas. A gente creditava tudo ao Papai Noel, o que no fundo é uma grande sacanagem que eu só aprendi depois que virei mãe. Porque eu gastava uma fortuna com o Luquinhas e quem era amado por isso era um cara que sequer existia.

Mas é só mais um sacrifício que os pais fazem por seus filhos e valia muito a pena toda vez que eu via meu filho na ponta dos pés, tentando olhar pela janela para ver se via o trenó do Papai Noel sobrevoando justo a nossa casa, na Pompéia.

Não me lembro do dia em que descobri que ele não existia, mas me lembro de todos os Natais em que eu acreditei.

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No último Natal, eu decidi dar a viagem de carro até a Argentina de presente para a minha família. Mas eu ainda não tinha contado para o Luquinhas que o Papai Noel não existia, então não havia como justificar o presente. Afinal, se o Papai Noel estivesse nos presenteando com uma viagem para a Argentina, por que não nos levaria em seu próprio trenó e nos deixaria apertados dentro de um Celtinha vermelho por dias?

Então, antes de sair de São Paulo, eu comprei um presentinho para o Lucas. Coisa simples mesmo, bem diferente do que ele estava acostumado a ganhar do Papai Noel nos outros Natais.

– Mãe, como é que o Papai Noel vai nos achar se nem nós sabemos onde estaremos no dia 24 de noite? – o Luquinhas me perguntou por várias vezes.

– Não se preocupe, Lu. Ele vai te achar – eu respondi, porque ainda não sabia bem como contar.

Descendo pelo Sul do País, acordamos no dia 24 de dezembro ainda em Porto Alegre. Tomamos café da manhã em Pelotas e percorremos todo o caminho até o Chuí, o trecho mais bonito da viagem. Cruzamos a fronteira para o Uruguai, passamos pelo vilarejo de nome Rocha e seguimos até Punta Del Leste. Lá, almoçamos. E rumamos para Montevidéo, aonde chegamos no meio da tarde.

Nossa véspera de Natal ia muito bem, obrigada. Nos instalamos em um hotel bacana e Luquinhas ficou mais aliviado porque daria tempo de Papai Noel nos localizar até lá. De noite, nos arrumamos e fomos procurar um restaurante para cearmos.

A ceia de Natal sempre foi farta também: peru, lombo, tender, camarão com catupiry, dois tipos de arroz, farofa, uns 5 tipos de salada, frutas e umas 6 sobremesas diferentes. Dessa vez, em pleno Uruguai, a gente só queria comer. Talvez uma carne boa, mas um jantar simples.

– Mãe, se der, a gente pode ficar no restaurante até a meia noite? Quero chegar no hotel e já encontrar o meu presente!

Saímos de carro em Montevidéo e descemos até as ramblas para ver o pôr-do-sol no Rio da Prata, às 9h da noite. Alimento para a alma. Depois, entramos no carro e partimos pela cidade. Passamos por toda a orla iluminada, pegamos um trânsito de uruguaios com seus pratos de comida, indo cear na casa de parentes. E não encontramos nenhum restaurante aberto. Nenhunzinho.

Ceamos dois cachorros quentes cada um em um trailer na frente do Hospital das Clínicas de lá. Nós 5: eu, Luquinhas, meus pais e meu irmão. Nós 6, aliás, porque conosco estava o dono do trailer, amargurado por ter que trabalhar na noite de Natal. Foi o pior cachorro quente que já comi, mas a melhor ceia que eu já tive. Porque o Natal, eu aprendi desta vez, é estar com quem a gente ama no lugar em que a gente quer estar.

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Quando chegamos ao hotel, alimentados de corpo e alma, Luquinhas não encontrou o presente em cima da cama. Esboçou uma decepção, mas antes que ele pudesse reagir, minha mãe gritou por ele no quarto ao lado: o Papai Noel tinha se confundido e deixado seu presente na cama dela.

Ele ganhou um carrinho, o presente mais simples que já tinha ganhado, sem saber que a viagem era o mais importante, o presente mais especial que eu já tinha dado a alguém. E ele ficou feliz como se tivesse ganhado na loteria.

– Papai Noel nunca se esquece, Lucas, por mais longe que a gente esteja de casa.

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No dia seguinte, foi Natal. Ele saiu pelas ruas de Montevidéo com seu carrinho que valia ouro. E no outro dia, fomos para Colônia do Sacramento, para atravessarmos o Rio da Prata de barco até Buenos Aires.

No dia 27 de madrugada, com o sol nascendo, bem no meio do Rio da Prata, eu chamei o Lucas e contei a ele quem era o Papai Noel e porque é que ele nunca se esquecia dele, Luquinhas. Disse a ele que o Papai Noel era um espírito que a gente encarnava quando a gente se lembrava de fazer o bem sem querer receber os parabéns. Que o Papai Noel era a minha vontade máxima de vê-lo feliz. E que o Papai Noel estava ali, diante dele, gaguejando enquanto o sol nascia no Rio da Prata.

Achei que aquele era o melhor cenário para fazê-lo entender que o Papai Noel vai existir pra sempre, enquanto a gente estiver junto. Não sei se um dia ele se lembrará disso tudo, mas eu, Papai Noel, nunca vou me esquecer.

Da motorista

21 dez

Em casa, só eu dirijo. Quer dizer, meu pai dirigia quando éramos crianças e adolescentes, mas na década de 1990, ele abriu mão do carro. Cansou, não sei. Foi um dos primeiros a adotar o discurso de que carro era uma arma, de que as pessoas eram estúpidas demais no trânsito e aí eu e meu irmão passamos a nos virar nas caminhadas e no transporte público. De certa forma, foi bom pra gente. A cidade passou a ser mais nossa, sabíamos ir para tudo quanto era lugar de trem, de buso, de metrô e no pé dois.

Foi um ex-namorado que insistiu pra que eu aprendesse a dirigir. Motivado, creio, pelo fato de ele não aguentar mais me dar caronas pra cima e pra baixo, ir me buscar nos lugares e me devolver, depois, já na madrugada. Curiosamente, esse ex-namorado vendeu o carro e hoje só anda de bike.

O fato é que aprendi a dirigir. Fiz as aulas direitinho e passei de primeira na prova prática, me tornei uma boa motorista, embora não saiba muito bem o que é direita e esquerda (sou mulher, gente!). Comprei um carro véio, um rádio legal e dei às caras no trânsito de São Paulo. E fui avançando os limites da cidade, peguei estradas, dirigi em outros lugares mais perigosos, embora menos confusos do que a capital paulista.

A filha caçula passou a levar o irmão mais velho nas festinhas, os pais no médico. Uma troca de papéis da qual muito me orgulho.

Mas, às vezes, me arrependo de ter aprendido. Principalmente quando a gente se vê em um trânsito parado na Marginal Tietê. Ou quando a tua mãe te pede pra pegar aquela prima do interior em Cumbica, em um sábado à meia noite. Ou quando eu me lembro que é dia de supermercado quando eu queria ficar só de bobeira em casa. Em um mundo ideal, todo mundo seria só carona. Os ônibus teriam poltronas confortáveis, gente bonita, ar condicionado e um som ambiente bacana. E ninguém precisaria aprender a dirigir.

Por outro lado, gosto da autonomia de pegar o carro e poder conhecer o que eu quiser, sair na hora que eu quiser, parar onde eu quiser, ouvir a música que eu quiser. Acho que a gente fica mais egoísta mesmo com um automóvel, como papai defendia ainda em 1990. Mas essa é a vantagem de ser a única motorista de uma viagem de quase 6 mil km. Todo mundo só vai mijar na hora que eu quiser parar.

Dos motivos

20 dez

Em época onde quase todo mundo pode andar de avião, atravessar quatro estados, cortar três países e percorrer quase 6 mil quilômetros de carro requerem alguns motivos.

O primeiro deles é sempre a viagem em si. Ela se basta e vale o cansaço físico, a paciência, o risco. O caminho ainda é desconhecido, mas sei que belas paisagens, cidades e pessoas nos esperam. Tudo ficará capturado e bem guardado dentro de nós.

O segundo é ter um carro novo. Comprei um carro no ano passado justamente pra isso. Mal uso o Celta dentro da cidade e, depois de um ano de uso, ele está com menos de 8 mil km rodados. Se eu tivesse um carro velho, talvez optasse pelo avião, ou mesmo por alugar um (dizem que é uma grande vantagem, mas não fiz essas contas).

O terceiro, acho que foi a falta de planejamento antecipado. Quando tive a ideia de levar a minha família pra Buenos Aires, fui olhar o preço das passagens e ida e volta sairia mais de R$ 1000 pra cada um. Se eu tivesse pensado nisso no meio do ano, talvez a passagem não tivesse saído nem pela metade do preço. Mas minha cabeça não funciona assim e não consigo planejar as coisas tão antecipadamente.

Somos em cinco, exatamente o número de cintos de segurança do carro. Gastaremos menos com combustível e hospedagem durante os dias em que dormiremos na estrada.

O quarto motivo e o mais importante é a minha mãe. Mamãe nasceu no interior de São Paulo, em uma família de espanhóis que foram fazendeiros de café, mas perderam tudo. Mamãe, claro, nasceu na época em que já tinham perdido tudo. Seus irmãos mais velhos conseguiram viajar para alguns lugares, mas não ela. Na infância e na adolescência, chegou a conhecer Curitiba e São Paulo, a capital. Mas, depois disso, viajou para pouquíssimos lugares.

Nossa família é uma família de classe média, mas mais pra menos do que pra mais na média. Se a nossa família fosse uma nota escolar em termos de grana, seria uma família C-. E sempre foi assim. Papai decidiu ser jornalista, mamãe decidiu ser dona-de-casa quando os filhos nasceram.

Passamos muitas férias na Praia Grande, em Itanhaém, em Ubatuba, em Olímpia, cidade da minha mãe. Nunca deixamos de viajar, mas nunca conhecemos grandes lugares quando criança. Nem quando adolescente.

Foi só aos 24 anos que andei pela primeira vez de avião, mas mamãe conseguiu andar de avião só aos 55. E foi para o Rio de Janeiro, visitar meu irmão que morava por lá na época.

Fico pensando que meu filho de 10 anos conhece mais lugares do que a minha mãe de quase 60. Luquinhas já foi pro Rio inúmeras vezes, pra Santa Catarina, para os Estados Unidos. A gente sempre se lembra (acho que deve ser instinto) de proporcionar tudo o que podemos para os nossos filhos, mas nunca para os nossos pais. Eles vêm sempre depois na lista de prioridades. Mas a gente se esquece que nossos filhos tem toda uma vida pela frente e nossos pais não mais.

Por isso, eu decidi, junto com o meu irmão, proporcionar isso para a mamãe. A chance de conhecer um monte de lugares de uma só vez, porque a vida é hoje e o tempo está passando. Sei que o sonho da mamãe é conhecer a Espanha, terra de sua família, do seu sangue fervilhante, do seu tempero, da sua história. Mas vamos começar do começo, com o nosso C-.

Mãe, essa é pra você.

Das apresentações

19 dez

Esse é um blog temporário sobre uma viagem que, espero, dure pra sempre (pelo menos, dentro de nós). No dia 22 de dezembro, nós, os Martin de Macedo, embarcaremos em um carro popular 1.0, vermelhinho, e sairemos de São Paulo rumo à Buenos Aires, na Argentina.

Nós somos cinco:

– eu, Leonor Macedo, 29 anos, jornalista, corinthiana, filha caçula e mãe do Lucas;

– Rose, minha mãe, dona-de-casa;

– Fausto, meu pai, também jornalista;

– Luquinhas, de 10 anos, meu filho;

– Rodrigo, meu irmão mais velho, também jornalista (êta, família de pobre!).

– o cachorro da foto não vai.

Serão duas semanas de viagem e passaremos por diversas cidades (São Paulo, Curitiba, Blumenau, Floripa, Gramado, Porto Alegre, Chuí, Punta Del Este, Montevidéo, Colônia do Sacramento, Buenos Aires, Puerto Iguazu, Foz do Iguaçu, Maringá e São Paulo de novo) e três países (Brasil, Uruguai e Argentina).

A ideia é ficarmos até dia 5 de janeiro na estrada, data em que meu pai faz aniversário (e que também o dinheiro, provavelmente, acabará. Na verdade, contando com nossos salários de jornalistas, acho que o dinheiro acabará antes).

Esse é um blog pra deixar registrada essa aventura. Pra que, no futuro, essas linhas, fotos, vídeos (e tudo o que for postado aqui) possam nos ajudar a lembrar desses dias que, tenho certeza, serão incríveis. Do jeito que a gente merece.